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A poesia que persegue o tempo

 

Um monóculo dá a dica: do presente o observador contempla uma imagem cuja distância é medida pelas unidades do tempo. O percurso entre a imagem e o observador pode ser demorado ou breve, sempre árido. O monóculo e o deserto da Síria são as pistas do quem vem a ser o livro “Beleza Distante” do poeta potiguar Demétrio Diniz. As imagens estampam a capa da brochura, que está circulando pelos recantos da cidade desde o início do mês.

            Sentado numa cadeira da redação deste jornal, ora com as mãos cruzadas sobre a barriga, ora sustentando o queixo, o autor falou do seu casamento com o tempo, relação que permeia sua vida e sua obra. Certo de sua verdade, ele disse que os efeitos do tempo são negativos e que fica triste quando vê uma pessoa do passado e constata nela uma doença grave. Segundo o poeta, ele trata do efeito corrosivo do tempo. “O tema recorrente em meus poemas é uma dissimulação do meu inconsciente”, disse Demétrio.

Este efeito está, por exemplo, no poema Sem Piedade. “(...) Para minha tristeza sumiram de sua mão estrelinhas/ o batom dos lábios/ o ruge da face/ as flores graúdas do vestido./Os olhos então se fecharam numa galáxia distante/ e não eram mais vazados”, escreveu. Demétrio diz que desde jovem sempre foi desgostoso com os efeitos da passagem do tempo na vida das pessoas, mas o que ele não sabia, é que entre os versos de seus poemas, morava a redenção.

Enquanto Demétrio Diniz maldizia o tempo, a reportagem apresentou-lhe o parágrafo final do poema Antígua. “(...) Dois séculos e meio depois/dos escombros de uma torre de pedras/ irrompe uma trepadeira com botões arrancados/ Nada Sabe de calendário, fé ou terremotos/ Viceja na tarde, se sobrepondo à morte”. O poeta parou e disse: “é mesmo, percebo que trato do tempo como sendo o autor de mudanças – positivas e negativas”.

            A reflexão de Demétrio revela o que o poeta esconde enquanto fala de seu livro: uma sensibilidade latente e um poder de observação poética.

Beleza Distante é editado pela “Barriguda” e tem 83 páginas. O conteúdo do livro é dividido em duas partes, a primeira chamada de Poemas de casa, onde o autor fala daquilo que está mais próximo à sua realidade, como o bumba meu boi do poema “Jogos de Ontem” e do cotidiano de Dona Maroca e seu João Antão.

Na segunda parte do livro estão os Poemas de Viagem, que falam das histórias mais distantes. O autor traz “A Velha de Quito”, “Cartagena”, “Atlantic III”, dentre outros. Ao todo são 34 poemas, onde o autor abre mão da métrica e da rima. Segundo Demétrio, trata-se de uma poesia em que a prosa vai se diluindo com o poema.

            Beleza Distante é o quinto livro do poeta. Antes dele foram publicados “Um homem sem poesia”, “Passarás”, “Haveres” e “Ferrovias”.

O livro não está disponível à venda, mas quem quiser conhecer os versos de Beleza Distante pode ligar para o autor (9900-6169), que faz questão de entregar um volume.

Como nasceu o poeta


O autor nasceu na cidade de Alexandria, interior do estado, se formou em Direito em Pernambuco e exerceu a profissão até pouco tempo.

Demétrio descobriu que era poeta depois que acordou de um sonho cheio de simbologias. “Sonhei com uma casa invadida por cinzas”, lembra. Reescrevendo o sonho surgiu: “Sou feito de cinzas, esturricadas, nasci em caatingas e me formei em deserto de aroeiras”, seus primeiros versos.

Fonte: Jornal Tribuna do Norte, edição de 25.06.2010

 

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